terça-feira, dezembro 13, 2011

Papo Paralelo: A questão dos Palavrões.

- Um estranho desabafo.


Como sempre, volta e meia o assunto das péssimas traduções e ‘suavizações’ das editoras brasileiras entram em voga (ou nunca saem). São estórias ‘editadas’, cenas de sexo ‘romanceadas’ e palavrões suavizados.



Estes dias mesmo eu estava pensando sobre o uso de palavrões na literatura. Pessoalmente, eu não gosto de estórias lotadas de palavrões e palavras de baixo calão. Acho que, quando um autor ou autora usa muito desse artifício, ele ou ela está trabalhando pouco no desenvolvimento do personagem ou personagens, por assim dizer. É muito mais difícil mostrar a raiva , o ódio de um personagem sem usar palavrão do que fazer o mesmo dizer ‘puta que pariu, caralho da porra!’ e pronto, cena terminada. Muitas vezes um personagem é muito mais grosseiro ou asqueroso sem dizer um único palavrão do que aquele que profere xingamentos a cada cinco frases. Acho que isso vai da habilidade do escritor.

Em uma cena de sexo, a uso da linguagem é imprescindível. Dependendo de como e quais palavras são usadas uma cena de sexo explícito pode possar de 'altamente érotica' à porno barato. 

Um ótimo exemplo é Nelson Rodrigues. Os livros, estórias dele são incrivelmente fortes e complexos com personagens, muitas vezes, na falta de melhor palavra ‘nojentos’ mesmos. Contudo, em nenhum de seus livros, Nelson escreveu um palavrão.

É claro que um ‘merda, caralho’ ou o que seja é às vezes necessário (seja nos livros ou na vida). Contudo, me incomoda quando um autor tenta forçar uma situação. Foi o caso de Sandra Brown em Uma Voz na Escuridão  Ela abusou tanto do uso de palavrões que a própria estória acabou em segundo plano.

É claro, existem livros e livros. Cenas e cenas. Gosto de erótica (ah, já escrevi muita fanfic NC-18, PWP*!) mas não faz muito o meu gosto cenas explícitas de estupro e violência sexual. Violência em si (tipo matança) não me incomoda tanto (não que eu ache uma lindeza ficar lendo sobre cabeças sendo degoladas) mas cenas de violência sexual me chocan e incomodam sim. Penso que o autor(a) pode muito bem falar sobre o assunto sem ser gráfico (a série Law & Order SVU é um ótimo exemplo).


Entretanto, apesar do meu ‘gosto pessoal a respeito do palavrão’ eu não acho que as editoras devam ‘suavizar’ suas traduções. Se o autor escreveu uma estória cheia de xingamentos, que assim seja. No livro mesmo que usei de exemplo, Uma Voz da Escuridão- apesar de particularmente não ter gostado do montante de palavrões, apreciei muito o fato da Editora Rocco não os ter ‘editado’.

Eu quero ler traduções fieis, não adaptações.

Não suavize, não edite. Nós, leitores, queremos ler a obra na íntegra! Algumas pessoas, como eu, não gostam de palavrões? Tudo bem, deixe indicações, avisos sobre linguagem imprópria na contra-capa, onde quer que seja. O mesmo poderia ser feito com livros com cenas de sexo mais explícitas. Nem todos gostam das mesmas coisas- mas todos deveriam ter o direito de poder escolher o que querem ou não ler.




Ah, pra finalizar, gostaria de contar uma estoriazinha sobre o filme Cinema Paradiso. Melhor dizendo, sobre a versão dublada e televisionada desse filme. Em determinada cena, o menino manda o velho projetista “tomar no cú!”. Ele recebe como resposta uma bronca. Isso no original. Na TV, a mesma cena passou com Toto, o menino, gritando : “Boa Sorte!”. E ele recebe como resposta uma bronca. Quem não viu o filme no original, fica sem entender por que o garoto levou uma bronca. Afinal, ele estava desejando ‘Boa Sorte’ né? Pois é. Sem Comentários.


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*NC-18: Para Maiores de 18 anos
PWP: Porn Without a Plot

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